A osteomielite tem cura? Essa pergunta de pacientes com diagnóstico de osteomielite é muito comum em consultórios de médicos que costumam tratar osteomielite. A resposta é sempre SIM, embora nenhum ortopedista possa prometer a cura em determinados casos. Leia até o final para entendermos tudo sobre o assunto.
Vamos entender melhor os cenários da osteomielite e desta maneira entendermos se a osteomielite tem cura ou não.
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Uma breve explicação
A todo momento, são publicados artigos no mundo todo relatando casos de osteomielite e suas taxas de recidiva, sempre comparando um tratamento com o outro na busca do mais efetivo. Desta maneira, os artigos apontam recidivas da osteomielite de 0 até 25% dos casos. Então, podemos inferir que pelo menos 75% dos pacientes com diagnóstico de osteomielite se curam e nunca mais se preocupam com a osteomielite.
Fonte: Imagens da Web
Por outro lado, esses estudos normalmente possuem um curto tempo de seguimento dos pacientes, não podendo confirmar se houve uma recidiva tardia da infecção. Um artigo publicado em 2012 em uma das revistas mais conceituadas do mundo, The New England, reportou o caso de uma recidiva de osteomielite no fêmur após 75 anos sem sintomas (https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/nejmc1111493).
Além disso, eu mesmo já tratei paciente com recidiva da osteomielite no úmero após 30 anos sem sintomas.
Mas afinal, Osteomielite tem cura ou não?
Inicialmente, devemos entender que para a cura da osteomielite diversos fatores estão associados e devem ser avaliados.
Vamos conversar sobre fatores que estão associados a maior porcentagem de cura da osteomielite.
Complicações relacionados ao paciente
Diversos fatores estão relacionados a cura da osteomielite em relação ao paciente.
- Assim como imaginamos, pacientes com mais jovens, com uma boa imunidade associado a hábitos de vida saudáveis, é esperada uma melhor resposta ao tratamento em relação aos idosos e com comorbidades.
- Dentre as comorbidades, as mais comuns conhecidas que podem prejudicar o tratamento da osteomielite são a diabetes melitus, insuficiência renal, pacientes com lesões nas artérias (que dificultam a sangue chegar até a região acometida pela osteomielite) e também doenças que deprimem o nosso sistema imunológico, tais como HIV, realização de quimioterapia, dentre outras.
- Outros fatores relacionados ao paciente que podem atrapalhar o tratamento da osteomielite são as alergias medicamentosas e doenças disabsortivas do intestino. Isso faz com que muitos pacientes não possam utilizar o melhor antibiótico para o microorganismo que está causando a osteomielite ou necessite que seja realizado apenas de forma endovenosa.
Risco relacionados a Osteomielite
Diversos fatores relacionados a própria infecção podem dificultar a cura da osteomielite:
- Localização
Embora todos os ossos sejam gerados de forma semelhante, a sua localização pode dificultar a cura da osteomielite. Em relação a localização, algumas regiões são de difícil acesso cirúrgico e estão perto de estruturas muito importantes, tais como nossa coluna vertebral, não sendo possível grandes debridamentos.
Outros ossos podem ser mal vascularizados, seja pela sua anatomia natural, seja por uma doença das artérias do paciente que dificulte o sangue chegar até lá, como o observado nos pacientes com pé diabético.
Além disso, a localização da infecção em determinado osso também pode dificultar a cura da osteomielite. Infecções ósseas nas regiões muito perto das articulações nos impede que realizemos debridamentos mais agressivos quando comparado com osteomielite no meio dos ossos longos, onde conseguimos até ressecar um segmento ósseo.
- Tempo da Osteomielite
Embora não seja comum diagnosticamos a osteomielite na fase aguda, há pacientes que não conseguem a cura da osteomielite de forma rápida, convivendo muitos anos com a doença, com fases de aumento e redução da drenagem de secreção por fístulas. Claro que o tratamento desses pacientes torna-se mais difícil, quanto antes iniciar, mais change de sucesso.
- Microorganismo
Sabemos que a osteomielite pode ser causada por outros microorganismos além das bactérias, tais como as micobactérias e os fungos. As osteomielites por micobactérias e fungos necessitam de um tempo mais prolongado de antibiótico devido serem microorganismos de difícil tratamento mesmo em áreas muito bem vascularizada.
Além disso, quando pensamos apenas nas bactérias que correspondem mais de 90% das osteomielites, sabemos que existem diversos tipos, e cada tipo responde melhor a um determinado antibiótico. Para dificultar ainda mais a cura da osteomielite, as bactérias possuem também diversos tipos de fixação em nossos ossos.
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Para citarmos um pequeno exemplo: a bactéria chamada Estafilococos aures é a mais comum causadora de osteomielite, sendo encontrada em aproximadamento 75% dos casos.
Descobertas recentes mostram que além do Stafilococos aureus poder criar o conhecido biofilme (como se fosse um castelo que impede os antibióticos chegarem até elas, ficando protegidas), estudos utilizando microscopia eletrônica comprovaram que elas podem invadir pequenos canalículos dos óssos, locais onde os antibióticos e células de defesa não chegam, e também podem invadir células ósseas e se manterem no interior delas durante anos de modo quiescente.
- Antibióticos
Como sabemos, para a cura da osteomielite, a base do tratamento é a limpeza e debridamento da região infectada associado ao do antibiótico mais adequado. Desta maneira, alguns pontos devem ser levados em questão. Sabemos que a penetração óssea de um antibiótico é normalmente menor do que em outras áreas do corpo.
Além disso, estudos mostram que existem antibióticos com melhor penetração nos ossos do que outros, tais como ampicilina, clindamicina, ciprofloxacino, bactrim, dentre outros. Associado a isso, cada bactéria possui um grau de resistência bacteriana, dificultando ainda mais a escolha do antibiótico.
Fatores de risco do tratamento
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- Planejamento
Embora pareça uma coisa óbvia, muitas vezes observamos pacientes sendo tratados de osteomielite sem um planejamento adequado.
A realização de exames de imagens é imprescindível para o tratamento adequado da osteomielite. Ele nos ajuda a definir estratégias cirúrgicas da melhor via de acesso para chegar em cada área afetada e o quão agrevisso será necessário ser durante a abordagem.
- Equipe multidisciplinar
Como já conversamos, a equipe cirúrgica que realizará a cirurgia tem que estar ciente de cada passo da cirurgia. Além disso, uma boa equipe de infectologia integrada a equipe de ortopedia ajuda a definir o melhor antibiótico para o microrganismo causador da osteomielite, o tempo de tratamento e acompanhar os efeitos colaterais esperados de cada antibiótico.
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Associado a essa equipe, outras especialidades médicas podem ser necessárias, como os fisioterapeutas, que possuem uma enorme importância na reabilitação desses pacientes.
- Cirurgia
Existem diversas técnicas utilizadas para o tratamento da osteomielite. Desta maneira, a expertise do ortopedista durante o pré, intra e pós operatório são muito importantes.
Cada passo dessas etapas deve estar planejada de maneira criteriosa. Muitas vezes cirurgias realizadas em mais de um estágio colabora para aumentar a previsibilidade de cura da osteomielite.
- Substitutos ósseos
Após a limpeza e debridamentos do osso com osteomielite, surge uma cavidade óssea na qual normalmente é necessário o seu preenchimento com os chamados substitutos ósseos.
Sabemos que esses substitutos ósseos são capazes de reduzir em até 83% a recidiva da osteomielite, ou seja, aumentam a taxa de cura da osteomielite.
Desta maneira, podemos SIM dizer que a osteomielite tem cura, pois a maioria dos pacientes passam pelo problema e depois de tratado de maneira adequada nunca mais sofrem com a osteomielite. No entanto, devido ao inúmeros fatores relatados acima, não é possível prometer a cura da osteomielite, pois há casos de recidiva.
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Referências:
https://www.journal-cot.com/article/S0976-5662(24)00508-3/fulltext